No
final de 2005 foi anunciado pelo Ministério
da Educação um concurso chamado
“Literatura para Todos”, que selecionaria
obras para usar em um programa de alfabetização
do Governo. Como
uma das categorias incluía Quadrinhos,
decidimos fazer uma história pra mandar
pro concurso.
Além de um bom um prêmio em dinheiro,
as obras selecionadas teriam uma tiragem de
300 mil exemplares para serem usadas no tal
programa de alfabetização pelo
Brasil todo. 300 mil pessoas poderiam aprender
a ler com a nossa história. Essa idéia
nos motivava bem mais que o prêmio em
dinheiro.
O
Fábio e eu passávamos todas nossas
horas vagas (carro, banho, refeições,
cama) pensando em idéias que poderiam
ser adequadas para nossa nova história.
Às vezes conversávamos a respeito,
mas a maior parte do tempo estávamos
consumidos por outros trabalhos, outras histórias.
Temos idéias todos os dias, mas essa
precisava ser especial.
Como
eu estava envolvido com o Casanova, a nossa
nova história ficaria a cargo do Fábio
desenhar. Por esse motivo, acho, era muito importante
que ele gostasse muito da idéia inicial
da nova história. Eu sabia que a idéia
teria que partir dele. Não demorou muito
e ele realmente pensou em algo.
Esse
desenho no topo da página ao lado foi
o ponto de partida da nossa nova história,
sobre um escritor que está em crise e
contrata uma assistente para ajudá-lo
a terminar seu romance. O escritor já
surgiu com personalidade e rosto, o do Lourenço
Mutarelli. Ele era estranho e fascinante o suficiente
para dar todo estofo que o personagem precisava.
O nome nós mudamos, mas o âmago
já estava criado. Assim, a história
seria em cima do escritor e os livros que ele
escreve, a reação que eles causam
no público e a sua relação
com seu trabalho e as pessoas ao seu redor.
Foi só surgir uma mulher, que tudo mudou.
O
Fábio queria contar uma história
com uma personagem feminina e como ele havia
pensado nessa idéia da assistente para
o escritor, acabamos mudando o foco da trama
para ela, que também é uma garçonete,
dessas pessoas que têm vários empregos,
mas nenhuma profissão. Com essa mudança
de perspectiva, algumas idéias iniciais
sobre o escritor foram descartadas, pois não
ajudavam mais a história.
Com
a sua relação com o escritor já
definida, o que o seu trabalho como garçonete
poderia acrescentar à história?
Mais personagens. Assim surgiram o Seu Monteiro,
o chefe, e o garçom sem nome (ah, você
não percebeu que ele não tem nome?).
O garçom, além do elemento romântico,
também traz consigo todo o universo da
música que a garçonete nunca tinha
visto no seu colega de trabalho.
A
história, então, é sobre
estas três pessoas e as estranhas ligações
entre elas. Foi assim que surgiu “A Camélia,
o Trompetista e o Rei do Jacarés”,
nosso título inicial, mas estávamos
lutando uma luta que já havia sido vencida.
O dia que chegamos na última fala da
Julia, sabíamos que ela era o título
perfeito para a história.
Nós
nunca ganhamos nenhum concurso e dessa vez não
foi diferente. Mas o mais importante foi que
fizemos mais uma nova história, que pode
não ter chegado às mãos
de 300 mil novos leitores, mas chegou às
suas.
—
Gabriel Bá
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