A Supremacia Moore
(ou
"Como não existem personagens ruins,
mas penas escritores ruins!")
As
histórias contidas neste primeiro volume
foram publicadas nas revistas Supreme #s 41 a
46, mas Supremo surgiu originalmente em Agosto
de 1992, numa história "tapa-buraco"
da revista Youngblood # 3, para depois ganhar
uma série própria em Novembro do
mesmo ano. Criado por Rob Liefeld, o personagem
nunca foi um exemplo de originalidade e muito
menos de qualidade, mas devemos nos lembrar que
eram os primeiros anos da Image Comics, quando
a fórmula da editora era a maior concentração
por página de personagens enraivecidos
e de anatomia duvidosa do que um bom roteiro.
Por
causa disso, muita gente se refere às primeiras
quarenta edições da série
com uma palavra que remete a algo de odor nada
agradável. No entanto, vamos tentar resumir
de maneira rápida e indolor a fase que
precedeu a entrada de Alan Moore no título.
Tenho certeza de que você torcerá
o nariz algumas vezes, mas, no final, irá
se divertir com a certeza irrefutável de
que não existem maus personagens, mas escritores
ruins...
No
mundo dos super-heróis, um personagem geralmente
é criado com uma característica
básica que o define e irá marcar
suas histórias seguintes. Por exemplo:
o Homem-Aranha começou como um herói
adolescente que adquiriu seus poderes acidentalmente,
mas, por causa de um egoísmo puramente
imaturo, acabou deixando livre o bandido que mataria
seu tio. Esse sentimento de culpa deixou claro
em toda a sua carreira de herói que grandes
poderes sempre vêm acompanhados de grandes
responsabilidades. Você pegou a idéia,
certo? Pois é... No caso do Supremo esse
pequeno detalhe de personalidade nunca foi levado
muito a sério... Roupa branca para inspirar
pureza, capa vermelha pra contrastar no visual,
cara de mal, dentes à mostra, punhos sempre
cerrados e prontos pra porrada... Isso era o que
definia o personagem. No primeiro número
de sua estréia, ele retorna à Terra
após 50 anos ausente, enfrentando uma nova
geração de heróis e vilões.
Às vezes, ele agia como uma espécie
de herói radical religioso, quase um anjo
da vingança, citando passagens bíblicas
para justificar seus atos. Em outras, o sujeito
se considerava um deus, e isso se agravou ainda
mais depois que ele venceu o deus nórdico
Thor e ficou com seu poderoso martelo Mjolnir.
Supremo
só ganhou uma origem de verdade na mini-série
de 3 partes The Legend of Supreme, publicada de
Dezembro de 1994 a Fevereiro de 1995 e escrita
por Keith Giffen e Robin Loren Fleming. Na história,
um jornalista chamado Maxine Winslow investiga
a origem do Supremo. Através da suas investigações,
descobrimos que Ethan Crane baleou e matou dois
homens porque ambos haviam estuprado uma garota
de 15 anos. Em seguida, Crane foi alvejado por
dois policiais, mas conseguiu sobreviver. No entanto,
ele foi julgado e condenado à prisão
perpétua. Na penitenciária, o governo
ofereceu a ele a chance de participar de experimentos
de aperfeiçoamento físico de seres
humanos. Crane aceitou, mas, infelizmente, morreu
como as outras seis cobaias antes dele. A única
diferença foi que ele voltou à vida.
Encontrando abrigo numa igreja, ele recebeu ajuda
do Padre Beam, e começou a descobrir que
era dotado de uma série novas habilidades
e poderes. Assumindo o nome "Supremo",
e ciente das notícias da guerra na Europa,
ele decidiu fazer sua parte e atuou como uma poderosa
força aliada na 2a Guerra Mundial. Quando
o conflito chegou ao fim, Supremo, que havia cumprido
o seu papel de bom samaritano, deixou a Terra.
Supremo
passou décadas no espaço, combatendo
inúmeras ameaças alienígenas,
mas acabou retornando ao seu planeta natal em
1992, quando encontrou uma sociedade totalmente
mudada e repleta de super-humanos geneticamente
engendrados que podiam ser encontrados em supergrupos
como Youngblood e Heavy Mettle (sim, a grafia
é esta mesma, onde "mettle" quer
dizer "vigor, ânimo, ímpeto,
valor"). Acredite se quiser, mas Supremo
tornou-se líder da segunda equipe por um
tempo, mas deixou seu "cargo" logo após
ter vencido o vilão Khrome.
Quando
Supremo combateu Thor pela posse do Mjolnir, um
personagem chamado Enigma trouxe um Supremo de
uma linha de tempo alternativa e o deixou "guardado"
no caso do herói ser derrotado. Bom...
Como revelamos alguns parágrafos acima,
o deus nórdico levou a pior, mas, mesmo
assim, o Supremo alternativo não foi devolvido
à sua dimensão. O Supremo original
foi dado como morto durante um ataque de Lord
Chapel, mas, na verdade, foi mandado para uma
Terra alternativa... Hummm... Confuso, né?
Mas não se preocupe. Vai piorar bastante...
Voltando...
O Supremo original passou vários anos nessa
Terra de outra dimensão, até que
o Supremo alternativo (retirado dessa linha temporal
por Enigma) retornou e (claro!) levou um cacete
do original. Depois de algumas aventuras pouco
relevantes, o Supremo original, o Supremo genérico,
Probe (a filha do Supremo vinda do futuro) e Enigma
lutam lado-a-lado para derrotar o deus nórdico
Loki, que havia causado várias anomalias
na realidade. Assim, em Supreme # 40, o Supremo
original parte rumo à sua própria
Terra, enquanto Probe decide ficar naquela dimensão
alternativa.
Sem
dúvida, um épico sem igual, mas...
Bem... Você já deve saber exatamente
qual a palavra que nos remete a algo de odor nada
agradável, certo?
Quando
Alan Moore foi convidado por Rob Liefeld para
escrever a série, o autor inglês
aceitou com uma condição: iria esquecer
tudo o que havia sido feito com o personagem antes.
Acordo fechado!
Não
vou comentar nada sobre as histórias em
si, pois você terá o prazer de lê-las
nas páginas a seguir. No entanto, para
os mais desavisados, a saga de Supremo escrita
por Alan Moore é uma verdadeira homenagem
ao gênero de super-heróis nos quadrinhos.
Cada capítulo, além de nos mostrar
mais sobre a "origem perdida" do Supremo,
faz uso brilhante da meta-linguagem e conta um
pouquinho da própria história dos
quadrinhos. Muitos críticos e fãs
ardorosos se referem a esta fase de Moore como
as melhores histórias do Superman jamais
publicadas. De certa maneira, Alan Moore ficou
"marcado" por recontar histórias
de personagens já estabelecidos na mídia
de uma maneira mais sombria e adulta (vide Watchmen
e BAtman: A Piada Mortal). O que o escritor fez
aqui foi justamente o oposto. Ele buscou na mitologia
das grandes histórias dos super-heróis
das décadas de 30 a 80 os ingredientes
para reconstruir um herói considerado medíocre
e transformá-lo num personagem interessante.
O resultado disso você verá neste
e nos próximos volumes de Supremo.
Por
enquanto, seja muito bem-vindo à Era de
Ouro! Boa leitura!
-
Leandro Luigi Del Manto
Editor

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