LOURENÇO
MUTARELLI E A REPRESENTAÇÃO DO HERÓI
por Lucimar Ribeiro Mutarelli
O
Herói trágico é um bode que berra ao ser
sacrificado, expõe publicamente o que lhe acontece, enquanto
o destino, com mãos de ferro, pendura-o de cabeça
para baixo e se prepara para cortar-lhe o pescoço
Flávio R. Kothe
Magnetizado
pelo cinema alemão (principalmente Herzog) e por um filme
em especial, As três coroas do marinheiro, de Raul Ruiz
(realizado em co-produção Chile e França),
contaminado pela literatura de Kafka e Dostoievski e embriagado
pela música de Carlos Gardel, Lourenço Mutarelli
gerou um grande número de heróis atípicos
das histórias em quadrinhos. Personagens que parecem
viver em uma dimensão muito próxima à nossa,
envolvidos pela depressão urbana quando são capturados
para viverem momentos cruciais (e muitas vezes terminais) de
suas vidas.
O
artista, que viveu sérias crises de síndrome do
pânico, usa suas histórias em quadrinhos como a
melhor forma de comunicação que encontrou com
o mundo externo. Foi desenhando que descobriu que as outras
pessoas podiam entender o que sentia e como via a vida ao seu
redor. A expressividade do preto do nanquim sobre a folha branca
do papel (técnica preferida por ele) ampliou o realismo
fantástico e sofrido de seus personagens.
Em
seus quatro primeiros trabalhos, o artista personificou, em
seus heróis, os dramas por ele mesmo vividos, catarses
de seu mundo solitário. Já o protagonista de seu
quinto álbum, Diomedes, com sua aparência grotesca
e personalidade instável, foge às características
de seus primeiros trabalhos, constituindo-se em um detetive
aparentemente incapaz de resolver qualquer caso. Ao escrever
O Dobro de cinco, o artista provou que sua linguagem está
realmente nos quadrinhos. Nessa obra, é impossível
dissociar um código de outro: são palavras e imagens
que caminham juntas, construindo uma narrativa envolvente, uma
armadilha.
De
uma certa forma, Lourenço Mutarelli personifica, em seus
heróis, retratos da sociedade contemporânea: o
trágico e burlesco, movido a decepções,
fracassos e muita insegurança de um mundo ficcional (ficcional?)
totalmente desprovido de elementos éticos e morais. Cada
leitura possibilita o descobrimento de novas particularidades
dos heróis.
Através
das histórias coloridas feitas especialmente para o site
da Revista Cybercomix, seus leitores acompanham suas desventuras
via Internet. Com uma série de histórias (quase
todas autobiográficas), o desenhista conquistou mais
um espaço para a tristeza, solidão e ilusão
por onde caminham seus "escolhidos". Os heróis
criados pelo artista são sinônimos para a dor existencial
e a reflexão em torno da miséria humana.
Do fanzine, publicação em revistas, lançamentos
de álbuns à Internet, Lourenço Mutarelli
é um digno "estudo de caso" a ser analisado
por pessoas que, geralmente, não elaboram, mas devoram
e são devoradas pela linguagem das Histórias em
Quadrinhos.
1
- O Início
Lourenço Mutarelli nasceu em São Paulo no dia
18 de abril de 1964. Cursou a Faculdade de Belas Artes porque
queria pintar quadros, mas sempre sentia a necessidade de pintar
também algumas palavras. Durante três anos, trabalhou
nos estúdios de Mauricio de Sousa, no começo como
intercalador e depois como cenarista, onde conseguiu deixar
um pouco de sua marca sombria.
Entusiasmado
pelo grande número de revistas que surgiram na década
de 80, tentou publicar suas histórias, mas elas eram
consideradas muito "estranhas". Quando tentou fazer
humor, criou o Cãoziño sem pernas, que, nos dias
de hoje, ainda é lembrado com saudade pelos seus fãs.
Iniciou
sua produção em histórias em quadrinhos
por meio dos fanzines, edições alternativas com
pequenas tiragens publicadas com recursos de xerox ou pequenas
impressoras, distribuídas pelo próprio autor.
Seus dois títulos, Over-12 (1988) e Solúvel (1989)
tiveram 500 exemplares impressos pela extinta Editora Pro-C,
de Francisco Marcatti, importante nome nos quadrinhos underground
na década de 80, e hoje são raridades muito bem
conservadas nas mãos de seus fiéis leitores.
Publicou
ainda histórias de uma página na revista Animal,
publicação mensal sob a editoração
de Rogério de Campos, Fabio Zimbres, Priscila Farias
e Newton Foot, e em outros títulos da Editora Vidente,
de Gilberto Firmino. Com Marcatti e Glauco Mattoso editou a
revista Tralha, também publicada pela Vidente.
Leia
aqui uma entrevista com Mutarelli.
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