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Cheiro
de Novidade
Para
filmar O Cheiro do Ralo, seu segundo longa, o diretor
Heitor Dhalia montou uma ´cooperativa de cinema´
e adotou modelo raro de produção independente
por
Flávia Guerra
O
filme tinha tudo para não sair do papel. O nome: Cheiro
do Ralo.
O mote: um homem desprezível, dono de uma loja decadente,
que compra coisas velhas e é obcecado por uma parte do
corpo da garçonete da lanchonete de quinta categoria que
freqüenta. A equipe de produção: a grande maioria
jovens com pouca experiência no cinema. A verba: nenhuma
empresa para quem o projeto foi apresentado quis investir no filme.
O segundo longametragem de Heitor Dhalia parecia ter destino certo:
a gaveta.
No entanto, o projeto não só saiu do papel como
figura como exemplo de produção de cinema independente
no Brasil.
Cansados de buscar patrocínio e ouvir vários ´nãos´,
Dhalia, os produtores Rodrigo Teixeira, Marcelo Doria, Matias
e Joana Mariani, resolveram investir dinheiro do bolso no projeto.
'Só de ler o título as pessoas torciam o nariz.
Isso porque temos aprovação pelas leis de incentivo
para captar R$ 2 milhões', conta Teixeira. Mesmo sem o
apoio, o filme está sendo realizado, e com menos que o
total de R$ 2 milhões. 'Vamos colocar o filme na lata com
R$ 330 mil. E partir para a captação para finalizá-lo
e lançálo', completa o produtor, que viu no filme
a chance de consolidar a Geração Conteúdo
como produtora de cinema. 'Já tínhamos coproduzido
O Casamento de Romeu e Julieta, mas este é nosso
primeiro projeto principal.'
O
CHATO DO LIVRO
Nenhum dos produtores está ganhando cachê. Nem o
protagonista. Selton Mello se apaixonou de tal forma pelo projeto
que não só abriu mão do cachê como
também se tornou co-produtor. 'Já tinha feito isso
com Garotas do ABC, mas com O Cheiro do Ralo é
diferente. Este é meu filme de maior importância
desde Lavoura Arcaica e O Auto da Compadecida. É
um divisor de águas. Pela primeira vez, interpreto alguém
mais velho', declara o ator de 32 anos, que se prepara para dirigir
seu próprio filme, Feliz Natal, em 2006.
O
caminho parecia natural. Selton é um dos poucos atores
que têm o privilégio de associar bons papéis
no cinema, na TV e no teatro. Além disso, dirige, edita
e coordena o Tarja Preta, seu programa no Canal Brasil.
Recentemente dirigiu o videoclipe do Ira!, Flerte Fatal.

FILME
USA HUMOR E IRONIA PARA CRITICAR UNIVERSO DA CULTURA POP
Nas filmagens de O Cheiro do Ralo que o Estado acompanhou,
ele auxiliava a atriz Fabiana Guglielmeti, com quem dividia uma
cena complicada, a encontrar o melhor posicionamento para a câmera
e a melhor forma de interagir.
'Gosto mesmo de dirigir. Procuro não interferir no trabalho
do Heitor, ajudo até onde posso.' A paixão de Selton,
que leu O Cheiro do Ralo em um vôo e ficou ´maluco´
para chegar ao destino e ligar para Dhalia para pedir o papel,
contaminou toda a equipe.
Dos figurantes ao tarimbado fotógrafo Zé Bob Eliezer
(o mais experiente do time), passando pela competente figurinista
Guta Carvalho e pela diretora de arte Patrícia Zuffa, todos
abriram mão do cachê em prol do projeto.
'Não
vou dizer que este é o modelo de cinema que deva ser seguido.
Mas é o que encontramos para não deixar um belo
projeto morrer na gaveta', declara Teixeira. 'Este é um
modelo bastante usado pelos cinemas independentes americano e
europeu.
Funciona e movimenta o mercado. É um modo alternativo,
desburocratiza o fazer cinema', completa Matias. 'É claro
que nós gostaríamos de ter R$ 2 milhões para
produzir, mas encontramos outras soluções. Posso
afirmar que desta vez estamos mais maduros, vamos fazer um filme
bem melhor que Nina (seu primeiro longa), com muito
mais prazer', completa Dhalia, que também se apaixonou
pelo livro de Mutarelli.
As
soluções para produzir um filme no esquema que pode
ser chamado de ´cooperativa de cinema´ passam também
por acordos com fornecedores da área. 'O apoio da Sentimental
Filmes (produtora de publicidade) foi decisivo. Eles nos
emprestaram objetos de cena, equipamentos e prestígio,
pois nos abriram portas e ajudaram em várias negociações',
explica Matias. 'Além disso, nossa equipe é reduzida
e bem integrada. A fórmula se assemelha ao cinema argentino,
mas com um toque brasileiro.'
HISTÓRIA DA BUSCA
Em projetos como este, a criatividade da equipe é decisiva.
'Eu tinha só R$ 20 mil para criar todos os ambientes. Fui
garimpando objetos em brechós, houve quem trouxesse de
casa, emprestei das Casas André Luiz. De tudo um pouco',
explica Guta Carvalho. 'Esta falta de recursos se adaptou ao formato
do filme e, para dizer a verdade, acabou nos dando mais liberdade.
Fazemos por paixão. Muitos entram como produtores associados
e podem receber sua parte caso o filme dê lucro', explica
Dhalia.
Outra solução foi o elenco, garimpado por Dhalia
e pelo produtor Chico Accioly. Além de novos talentos,
nomes como Silvia Lourenço, Leonardo Medeiros, Flavio Bauraqui,
Alice Braga e Milhem Cortaz estão na lista. Mas o nome
forte é mesmo o de Selton Mello. 'Ele dialoga com todo
tipo de público e tem a verve humorística necessária
para o filme', comenta Teixeira. 'Ao contrário de Nina,
um filme mais denso e hermético, O Cheiro tem humor.
O roteiro do Marçal Aquino é ácido, sarcástico,
irônico. É uma crítica ao universo pop a que
estamos submetidos. Mas o faz em uma narrativa bem próxima
de nós', comenta Dhalia. 'Na verdade, como diz Mutarelli,
O Cheiro do Ralo é a história da busca e
todas as conseqüências que ela traz. Tudo isso permeado
pela metáfora do ralo, que traduz o mal-estar. Tudo que
está errado para o protagonista é culpa do cheiro
do ralo.' Selton concorda.
'O
Lourenço é desprezível, mas você acaba
entendendo seus porquês e se torna impossível não
gostar dele. Costumo dizer que esse filme é meu Taxi
Driver por causa do processo de enlouquecimento dele', explica
o ator que, para entrar no universo do personagem, ´decorou´
a parede de seu camarim com várias frases e pensamentos
que permeiam o livro, como O poder é afrodisíaco.
Sou
chamado no set de ´o chato do livro´ porque tudo que
sai muito da história eu aponto.' Enquanto diz isso, Selton
tem o juiz perfeito para dizer se sua fidelidade se comprova.
É o próprio Lourenço Mutarelli que acompanha
a entrevista enquanto aguarda a hora de voltar ao set.
E o autor não está ali para fiscalizar. 'Selton
faz isso por mim', brinca ele, que ganhou o papel de segurança
da loja do personagem de Selton (não por acaso batizado
de Lourenço). 'Lourenço, o personagem, é
o único que tem nome no filme. Todos os outros são
anônimos, a Noiva, a Mulher Casada, a Garçonete,
o Homem do Relógio, o Encanador.
Tudo
isso porque, assim como os objetos que compra dessas pessoas,
Lourenço também as coisifica', informa Dhalia. O
outro Lourenço, o Mutarelli, é mais um desses anônimos.
Vestido dos pés à cabeça de vinho, ele é
O Segurança da obsoleta e decadente loja. 'Está
surpreendendo. Não é que o cara é bom ator?',
brinca o diretor, que já havia trabalhado com o desenhista
em Nina. 'Esse filme, que quase engavetamos, ganhou uma
força que nunca imaginei.
Devo muito ao Chico Accioly , que me convenceu a ir em frente.
Assim como os patrocinadores, que travam só de ler o título,
quem tiver estômago para ultrapassar ´o cheiro´,
vai se surpreender', aposta Dhalia. |